A miséria dos pisos táteis


Voltando ao assunto. Desde que desenhei um padrão de calçadas para rotas acessíveis à Arena Fonte Nova, para a Copa de 2014, tenho estado numa cruzada contra o uso equivocado dos chamados pisos táteis direcionais. Para os que não conhecem, são aqueles módulos em alto relevo, geralmente amarelos, utilizados em pisos internos e externos.

Na época, era um estudo para o Governo da Bahia, via SEDUR, e as calçadas foram implementadas no Comércio, em torno do Mercado Modelo e nas proximidades da Arena. O padrão, em concreto e pedra portuguesa na faixa de serviço, ganhou recentemente um novo desenho, mas os materiais e usos foram mantidos.

A Caixa Econômica, que financiaria a obra, exigia que eu refizesse o desenho das calçadas com implementação do piso tátil direcional. Me recusei e escrevi um parecer técnico com base na NBR9050. Felizmente foi uma defesa suficiente para o bom senso prevalecer e as calçadas foram executadas como no projeto original.

A verdade é que o uso do piso tátil direcional virou uma panacéia nas cidades brasileiras, com todo tipo de interpretação equivocada por parte de gestões municipais e aplicações bizarras, como o piso em zigzag da foto.

O erro básico vem do fato de confundirem “existência de uma linha-guia” com a necessidade de que essa linha seja um piso direcional. Não precisa ser. Em calçadas, melhor que não seja. Basta que seja um elemento contínuo. Existem diversas maneiras de se ter uma linha-guia eficiente e o próprio meio-fio já é uma delas.

Volto ao assunto porque decretos das prefeituras e, às vezes, até exigências de professores, estão fazendo que muitos estudantes de Arquitetura, assim como técnicos municipais, achem que especificar esses pisos em calçadas seja a coisa mais óbvia e natural do mundo.

Essas medidas e técnicas, que aparecem para proteger grupos vulneráveis, têm um potencial incrível de liberar a consciência de “guerreiros sociais” embevecidos com as agendas politicamente corretas. Na ânsia de mostrar “provas de virtude”, cometem erros crassos e que, com muita frequência, são prejudiciais àqueles a quem, supostamente, pretendiam auxiliar. É o caso também - esse ainda mais perigoso - da proliferação das ciclofaixas. Mas falo disso em outro momento.

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